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12/05/2008

Bromélia e Dengue

Um estudo desenvolvido pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC) da Fiocruz
> aponta que, em locais de interface entre o ambiente urbano e silvestre
> - como parques e encostas de morros -, as bromélias não têm um papel
> importante na proliferação do mosquito Aedes aegypti, vetor do vírus
> do dengue. Durante um ano, 156 bromélias situadas no Jardim Botânico
> do Rio de Janeiro foram monitoradas, recobrindo dez espécies. O
> resultado do estudo aponta para o baixo índice de presença das formas
> imaturas do A. aegypti, gerando indícios que redirecionam o trabalho
> de prevenção.
>
> A queima de encostas com bromélias para fins de prevenção não é eficaz
> (Foto: Marcio Mocelin)
>
> A água acumulada nas folhas, que serve como reservatório de nutrientes
> para a planta, foi analisada com o objetivo de verificar a presença de
> formas imaturas de mosquitos (como larvas e pupas) e de identificar o
> porcentual de presença do vetor do dengue. "Antes mesmo da realização
> de estudos sistematizados sobre o tema, medidas como a eliminação das
> bromélias e o uso indiscriminado de inseticidas já vinham sendo
> adotadas pela população", afirma o biólogo, que desenvolveu o trabalho
> no Laboratório de Transmissores de Hematozários do IOC como estudante
> de iniciação científica.
>
> "Apenas 0,07% e 0,18% de um total de 2.816 formas imaturas de
> mosquitos coletadas nas bromélias durante o período de um ano
> correspondiam ao Aedes aegypti e Aedes albopictus, sugerindo que as
> bromélias não constituem um problema epidemiológico como foco de
> propagação ou persistência desses vetores", diz Mocellin,
> acrescentando que o estudo foi desenvolvido durante um ano inteiro
> para que fosse possível observar as características sazonais de cada
> estação. A presença do Aedes albopictus também foi investigada porque,
> apesar de não haver registros da transmissão da dengue por esta
> espécie no Brasil, em condições experimentais o mosquito se mostrou
> capaz de atuar como vetor potencial do vírus. O jovem pesquisador
> destaca que no mês de abril, em que houve a maior taxa de captura,
> foram encontradas 376 formas imaturas de mosquitos nas bromélias
> analisadas. Deste total, apenas dois exemplares correspondiam ao
> gênero Aedes.
>
> A constatação de que as espécies encontradas em maior número nas
> bromélias monitoradas não oferecem perigo à saúde humana foi outro
> dado relevante. "Verificamos a prevalência de espécies de Culex com
> importância epidemiológica nula e que sugam animais de sangue frio. A
> sua presença em grande número nas bromélias indica que a invasão do
> vetor do dengue neste espaço não deve ser simples, já que ele teria
> que competir com insetos mais adaptados àquele ambiente", avalia o
> entomólogo Ricardo Lourenço, orientador do estudo. "Esta pesquisa
> indica que as larvas de Aedes encontradas nas bromélias não devem ser
> supervalorizadas no trabalho de prevenção e reforça que os esforços
> devem ser voltados para os focos principais, como caixas d'águas
> destampadas ou mal tampadas, tonéis, piscinas e outros depósitos com
> água parada", adverte.
>
> Segundo o pesquisador, a escolha do bromeliário do Jardim Botânico
> para realizar a pesquisa não foi um acaso. "O Jardim Botânico é uma
> interface entre o ambiente semi-natural (a Mata Atlântica) e o
> ambiente urbano (bairros da Gávea, Horto, Jardim Botânico) e ali são
> cultivadas espécies de todas as regiões do país. Além disso, o estudo
> mostrou que as bromélias localizadas em parques como este ou em
> encostas, como as da Urca, Leme e Pedra da Gávea, não constituem uma
> ameaça", complementa, destacando que, apesar disso, a queima de
> encostas para destruição de bromélias vem sendo freqüente. "A
> destruição indiscriminada de bromélias vem sendo utilizada como uma
> suposta forma de prevenção ao dengue, pois tem sido divulgada uma
> idéia de que as bromélias são importantes focos do mosquito. Estamos
> justamente provando o contrário e seria importante que as práticas de
> prevenção acompanhem as descobertas da ciência. A queima de encostas
> com bromélias para fins de prevenção, portanto, não é uma prática
> eficaz e desfoca a ação de controle que deveria se concentrar nos
> focos comprovadamente geradores de mosquitos", afirma.
>
> Para Maria Lúcia Teixeira, responsável pelo Laboratório de
> Fitossanidade do Jardim Botânico - que, entre outras atividades, faz o
> controle de doenças e pragas no parque - e co-autora do trabalho, o
> resultado traz tranqüilidade aos visitantes e moradores da região.
> "Apesar de não havermos registrado casos de dengue entre os
> funcionários, precisávamos de um estudo aprofundado para comprovar se
> as bromélias são focos de Ae. aegypti na nossa situação, em que
> estamos junto à floresta mas com a presença constante de pessoas",
> explica.
>
> De acordo com informações da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de
> Janeiro, os índices de infestação predial por Aedes aegypti na Gávea e
> Jardim Botânico, bairros vizinhos ao Jardim Botânico do Rio de
> Janeiro, eram de 3% e 4,45%, respectivamente nos meses de janeiro a
> abril de 2006. Ou seja, a cada três ou quatro domicílios inspecionados
> foram encontrados um ou muitos focos com larvas e pupas de Ae.
> aegypti, que poderiam ter dezenas delas. "Estes números, considerados
> altos pela Organização Mundial de Saúde porque ultrapassam 1%,
> contrastam com a baixa freqüência de formas imaturas destes mosquitos
> invasores nas bromélias do Jardim Botânico, onde somente duas larvas
> foram coletadas e uma única planta após 480 inspeções", confirma
> Mocellin.
>
> O próximo passo da pesquisa prevê a investigação da incidência de
> larvas do vetor da dengue em bromélias localizadas em ambientes
> exclusivamente urbanos. "Um dos principais alvos da nova etapa do
> projeto, que deve ser iniciada no segundo semestre, inclui a coleta em
> condomínios, por exemplo, lugares em que existe maior intervenção",
> conclui Mocelli.
> .


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